𝕯𝖎𝖆́𝖗𝖎𝖔 𝖉𝖊 𝕮𝖔𝖓𝖈𝖊𝖎𝖈̧𝖆̃𝖔
15
𝖉𝖊 𝕱𝖊𝖛𝖊𝖗𝖊𝖎𝖗𝖔 𝖉𝖊 1999

Pouco se fala sobre o perdão que sentimos a necessidade de sentir pela nossa família.

Os anos foram se passando e eu comecei a ver beleza na calmaria das águas, no canto dos pássaros e nos peixinhos que passeiam dentro de mim, como se nadassem pelas minhas entranhas.

Me convenci que deveria de algum jeito perdoar, que não valia a pena sentir algo além do que eu me permitia sentir de maneira lógica. Me coloquei no lugar delas, vi minhas ações antigas e me esforcei pra enxergar os pontos que ligavam meus possíveis erros às suas ações.

Pouco se fala também sobre a náusea contida quando percebemos que fomos feridos por uma razão que vai para além de nós. Quando eu finalmente entendi que haviam sido minhas mães que planejaram os feitiços que me transformaram em lagoa, tentei encontrar todo tipo de explicação. Costumavam dizer que meus poderes eram fortes demais e que isso era, de certa forma, para me proteger.


Acho que existe uma sensação de embrulho no estômago quando vemos mães fazendo algo reprovável com suas crias. É o tipo de coisa que faz as pessoas desviarem o olhar e sentirem coisas que não conseguem colocar em palavras.

Que tipo de mãe mataria seus filhos?


Eu posso colocar a culpa nos traumas geracionais, nas manipulações alheias, nas crenças cegas, nas boas intenções.
Mas no final, somos humanos, ou quase isso ou pior. E a vida segue.

Os pescadores continuam velejando, a cidade continua crescendo, as pessoas continuam amando e rindo e chorando e cantando.
Esse ciclo de traumas – eu disse à elas – acaba aqui, comigo.

Então eu aprendi a ver beleza no vento que balança as árvores, no formato das nuvens acima de mim, nas noites claras de lua cheia e, principalmente, nos peixinhos que nadam e saltam através das minhas entranhas.  


𓆝 𓆟 𓆞 𓆝

Voltar