𝕯𝖎𝖆́𝖗𝖎𝖔 𝖉𝖊 𝕮𝖔𝖓𝖈𝖊𝖎𝖈̧𝖆̃𝖔
12 𝔡𝔢 𝔫𝔬𝔳𝔢𝔪𝔟𝔯𝔬 𝔡𝔢 2008

Minhas primeiras lembranças são de água. Lembro de ver o mar e ter o primeiro vislumbre do que é algo imenso – algo que vai para além do nosso olhar.

Tenho pensado muito sobre a época do meu despertar, naquele tempo o conceito de adolescência não era algo como hoje – existiam crianças e então adultos, a linha que dividia os dois era um pouco turva. Depois de tanto tempo sendo água muitas das minhas lembranças se fundem aos ventos, diversas vezes me pego achando que certa lembrança é minha quando na verdade eu apenas ouvi alguém contando em sussurros na beira da lagoa sobre certa cena que viram aos 12 anos – aquela rua de terra onde correram até cair, a cor verde da grama nas manhãs antes da escola, a vez que viram uma cobra atravessando a rua perto de casa, ao lado do mato. Você descobre que as pessoas se conectam com água muito mais do que com outras pessoas, às vezes. Elas vinham até mim e me contavam segredos como se eu fosse sua mais velha amiga. Sim, aquela menina no outro dia que cumprimentei, ela vinha me contar segredos anos atrás e a confusão no seu olhar quando eu a abordei pela primeira vez foi tanta que cheguei a rir constrangida. Como posso explicar algo assim?

Eu vi tantas coisas nesses anos… que aquela época, a época do meu despertar parece tão distante quanto um sonho. Mas partes dessas memórias ainda existem, de quando eu comecei a perceber que as coisas mudavam ao meu redor quando eu pensava o suficiente sobre elas. Lembro do olhar de Oscarina quando me viu mudar a cor de uma flor pela primeira vez. Sua surpresa e satisfação juntas, naquele olhar que carregava tanta rigidez. Um dia, no café da tarde eu queria tanto comer uma torta de maçãs que o pão caseiro que Adel havia feito de repente estava recheado com pedaços de maçãs assadas e doces. O choque em seu olhar me pegou de surpresa. Naquela época ainda achavam que eu era menino, então talvez tenha a ver com isso também.

É engraçado recordar essas lembranças tão antigas – antes das complicações, brigas, reviravoltas. As pessoas erram e mudam, algumas para melhor e outras para pior. Esse processo todo ainda me deixa muito pensativa.

Estive conversando com Tereza – ela parece ser uma pessoa que me entende, nessa coisa de ser uma criatura meio antiga, meio marcada pelo tempo e pela confusão dele. Descobri que ela fez aniversário de 318 anos na semana passada. Sinceramente, a vida dela daria uma novela de jornal muito interessante. Até hoje não entendi porque escolheram meus diários antigos pra isso.




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